quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Jogar para Crescer e Relacionar

(Fotografia por Nathalie Marques - Jogo "Jenga")

Muitas vezes as pessoas perguntam-me para que serve jogar nas sessões de psicologia. A resposta não pode ser dada com simplicidade porque requer explicar vários domínios que são influenciados por este momento lúdico. Ao contrário de "brincar", "jogar" implica, normalmente, regras definidas, que não devem ser alteradas e, ainda, competitividade.
Na minha prática, aprendi que "jogar" pode ser também um óptimo meio de comunicação silencioso. Crianças e Jovens introvertidos ou com muitas dificuldades de comunicação, dificilmente irão passar informação sobre si e elaborar os seus conteúdos internos através da expressão oral. Característico desta população é também a grande dificuldade em estabelecer uma relação. Neste sentido, desde logo que percebi que jogar permite uma nova forma de interacção, sem implicar uma exposição muito acentuada e muito facilitadora da relação. 
Um bom exemplo é o jogo "Jenga", que consiste em construir uma torre e, de seguida, ir retirando peças até que um jogador tire a peça fatal e perca o Jogo. Neste caso específico (porque há várias versões do jogo) tem um dado que te indica qual a peça que deverá ser tirada, isto é, se sair o padrão da Zebra, é um bloco dessa cor que deverá ser tirado tentando, ao máximo, garantir o equilíbrio entre as peças.

Os jogos no geral têm várias funções quer ao nível social como pessoal e deixo-vos aqui alguns itens a serem considerados.

Aprender a Esperar:  Os jogos, pela sua exigência em ter, pelo menos, dois jogadores, contribuem para a aprendizagem de esperar. Tal como cita Bettelheim (2003) "aguardar pacientemente é uma lição, muito difícil, que as crianças têm que aprender. A criança pode ser paciente porque sabe que é preciso obedecer à regra do jogo e que será dentro em breve a primeira da fila. Comparemos estes jogos com o conceito de espera paciente que é suposto a criança aprender na escola. Esperar a sua vez porque senão o fizer o jogo se torna impossível é uma coisa completamente diferente  de estar na fila para entrar na sala de aula depois de o recreio acabar. As crianças detestam que lhes impinjam os sermões moralizantes sobre cooperação e responsabilidades sociais, não vale a pena dizer a uma criança que estas virtudes são desejáveis, pois ela sabe perfeitamente que se sentiria muito mais feliz se pudesse pura e simplesmente seguir e dar livre curso às suas tendências egoístas. Mas se tentar fazê-lo em pleno jogo, este imediatamente fica desorganizado e assim a criança é obrigada a aprender a controlar-se".

Aprender a concentrar-se: A actividade lúdica do jogo permite ainda desenvolver a capacidade de concentração e atenção, focando-se no seu papel e a tomar atenção naquilo que os outros jogadores fazem.

Aprender a Perder:  Bettelheim (2003) diz também que as crianças "aprendem qualquer coisa que escapa (...) a na nossa sociedade: a importância de saber perder. As crianças tornaram-se rapidemanete capazes de aceitar uma derrota sem se sentirem acabrunhadas por ela, pois dão-se conta de que o jogo, como mais tarde na vida, não se pode ser sempre o mais forte. Mas para isso, é preciso que a sua participação no jogo seja espontânea e livre de qualquer pressão do exterior. Não serve de nada dizer a uma criança que deve ser "um bom jogador". Ninguém adopta uma determinada atitude pela simples razão de lhe dizerem que essa é a atitude desejável. A criança não é capaz de integrar essas atitudes senão participando em situações que as tornem indispensáveis e que lhe provam que são em seu benefício".

Aprender o (Auto)controlo: O jogo, pela necessidade de espera e pelo cumprimento das regras, mesmo que leve à derrota, principalmente nas crianças mais velhas, aprendem, sobretudo, a controlar a agressividade e a suportar a agressividade dos seus adversários. Apenas com controlo é possível sentir prazer nas contínuas interacções que animam todos os jogos em que intervém parceiros que são também adversários. Ter em conta que este é um progresso prolongado na sua evolução. Só assim é possível a criança aceitar e compreender o facto de que as regras são seguidas, não por razões abstractas, mas sim porque elas podem permitir ao jogador evoluir dentro de condições aceitáveis (Bettelheim,2003).

Aprender a Socializar: Entre os pares, a discussão sobre a escolha de um jogo e as suas regras ocupam grande parte do tempo até jogarem, havendo naturalmente uma evolução sobre o papel que cada um deverá desempenhar. Tendo em conta a natureza do grupo, este momento pode ajudar a fomentar na criança a capacidade de apreciar o que é conveniente e o que não é, pesar os argumentos, tomar conhecimento da importância primordial do consenso e quais são os melhores meios para o conseguir (Bettelheim,2003).

Referências
Bettelheim, B. (2003) Bons Pais - O sucesso na educação dos filhos. Bertrand Editora: Lisboa

Façam bom proveito desta partilha de experiência!
Boas energias!

Nathalie Marques



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